O problema é compreender como a ação, o discurso, a resistência de um proletariado que, a partir de agora, se tornou intelectualidade de massa. Paradoxalmente, são os próprios trabalhadores que produzem as imagens, as linguagens e as formas utilizadas para construir a falsificação do mundo, para transformar o sentido da realidade, para subtrair a essa realidade toda significação antagonista. O problema principal se torna, então, a identificação, a partir das forças que vivem nesse tipo de mundo e que entraram nesse novo tipo de realidade, de uma forma de expressão material. Não uma forma de expressão alternativa – a alternativa implica sempre uma certa alusão ou uma analogia com o “velho” -, mas, ao contrário, uma expressão que consiga achar, dentro dessa unificação forçada, mundializada e comunicativa, pontos de apoio, pontos de ruptura, pontos suscetíveis de constituir o novo.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.42
A passagem da “inflação” (de desejos e de necessidades) dos anos subseqüentes a 68 para a desinflação dos custos representa a transição capitalista do moderno ao pós-moderno, do fordismo ao pós-fordismo. É uma transição política no meio da qual o trabalho assalariado foi exaltado como matriz fundamental da produção das riquezas. Mas o trabalho foi separado de sua potência política. Essa potência política provinha de trabalhadores reunidos no interior das fábricas, organizados em estruturas sindicais e políticas fortes. A destruição dessas estruturas deixos atrás de si uma massa informe de proletários agitando-se no terreno: um verdadeiro formigueiro, que produz riquezas através de uma colaboração e cooperação contínuas. [...] E esse é o incrível paradoxo frente ao qual nos encontramos. Isso porque o trabalho ainda é considerado emprego, trabalho “empregado” pelo capital, em estruturas que o submetem diretamente à organização capitalista de produção.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.25-6
Precisamos de pessoas como aqueles sindicalistas norte-americanos do começo do século que pegavam o trem para o Oeste e que, em cada estação atravessada, paravam para fundar uma célula de luta. Durante toda a viagem, eles conseguiam trocar suas lutas, seus desejos, suas utopias. Mas também precisamos ser como São Francisco de Assis, ou seja, realmente pobres: pobres, porque é somente nesse nível de solidão que podemos alcançar o paradigma da exploração hoje, que podemos captar-lhe a chave. Trata-se de um paradigma biopolítico, que atinge tanto o trabalho quanto a vida ou as relações entre as pessoas. Um grande recipiente cheio de fatos cognitivos e organizacionais, sociais, políticos e afetivos.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.24
Cada um de nós é uma máquina do real, cada um de nós é uma máquina construtiva. Hoje não há mais profeta capaz de falar no deserto e de contar que sabe de um povo por vir, por construir. Só há militantes, ou seja, pessoas capazes de viver até o limite a miséria do mundo, de identificar as novas formas de exploração e de sofrimento, e de organizar, a partir dessas formas, processos de libertação, precisamente porque tem participação ativa em tudo isso.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.23
A cooperação produtiva do operário social é a consolidação da recusa ao trabalho. [...] na realidade, quanto mais abstrata se torna a instrumentalização da produção, supera a figura da mecanização e se torna imaterial, tanto mais implicada está na luta que atravessa o social. A automação participa, todavia, em parte, da velha economia política do controle mediante a maquinaria: mas a informática se encontra já mais além deste horizonte, e oferecer enormes potenciais de ruptura.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.8
Desde os anos 70 tivemos a infeliz sorte de viver o período mais cruel e estúpido da reestruturação e da repressão. Mas neste mesmo período capturamos a determinação de uma nova contradição estratégica que se abriu pela radical socialização produtiva na relação com o poder capitalista (seja burguês ou socialista). [Agora] [...] o comunismo se propõe segundo o modelo do poder constituinte. [...] O poder constituinte configura a produção social, engloba o social e o econômico no político, abarca a organização da produção e a organização política de maneira radicalmente construtiva.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.6-7
Na segunda fase da segunda revolução industrial, [...] a contradição estratégica se esboça entre processos produtivos e processos reprodutivos, ou de socialização avançada. [...] Aqui se torna explosiva a contradição entre massificação de um trabalho desqualificado e abstrato, que os operários recusam, e elevação geral do grau de cooperação, do nível de salário, da qualidade das necessidades. O operário massa constrói, em torno de sua recusa do trabalho e ao descobrimento da altíssima socialização do trabalho, seu próprio modelo de comunismo, em termos de modelo alternativo.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte , p.6
Na primeira fase da segunda revolução industrial, que vai de 1848 a I guerra mundial, as maiores contradições (sincrônicas, internas ao capital) se dão entre processos laborais diretos e processo capitalista de produção. O operário profissional, inserido no meio do processo laboral que controla plenamente, quer também o controle da produção. A reivindicação da autogestão do processo laboral e o controle do ciclo produtivo constituem, nesta fase, contradição estratégica. Está claro por que: porque uma subjetividade, um programa, nasce ali donde amadurecem as determinações sincrônicas e os ritmos diacrônicos que definem de maneira geral um período. Em torno do tema da autogestão e do controle, a multidão de operários profissionais constrói a matriz de um sujeito revolucionário e desenvolve o projeto comunista em um “modelo apropriativo”.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituyntep.06
A trama sobre a qual se define a subjetividade antagonista não é uma tendência projetada para um porvir mítico, para uma hipóstase futura, ao contrário, o processo de desconstrução é também processo de construção de uma subjetividade. Sabotagem e autovalorização são rostos de um mesmo sujeito, melhor ainda, a dupla figura da porta de jano que introduz a constituição do sujeito. [...] Se efetivamente a produção já é completamente comunicação, o sentido do antagonismo não terá um lugar ou um tempo de fundação distintos da própria comunicação. É na desconstrução da comunicação donde se constrói o sujeito, donde a multidão torna-se potência.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.04
O capital, por mais reformista que seja, jamais acede de bom grado a uma fase seguinte ou superior do modo de produção. De fato a inovação capitalista é sempre um produto, um compromisso ou uma resposta, em resumo, uma constrição derivada do antagonismo operário. Deste ponto de vista o capital sente frequentemente o progresso como um atraso. Ou melhor, uma desconstrução. Porque, quanto mais radical é a inovação, tanto mais profundas e fortes são as forças proletárias antagonistas que as determinaram, e extrema foram, portanto, a força utilizada pelo capital para dominá-las. Toda inovação é uma revolução fracassada, mas também empreendida. Toda a inovação é a secularização da revolução. [...] o aumento da complexidade é o aumento da precariedade da dominação. [...] Hoje o processo de inovação desestrutura, desconstrói o capital. [...] Mas quem desconstrói a quem? O objeto e conhecido: desconstrução é desestruturação da dominação, profunda, implacável, irreversível, se produz no momento em que a forma política e social da exploração se determina e suas inovações se manifestam. Mas quem atua no interior das dinâmicas deste antagonismo? O ator é em primeiro lugar a multidão, é a multiplicidade inumerável de poderes e saberes sociais, e a rede do cotidiano significante. Não falamos de sujeito, porque não posso atribuir-lhes características subjetividades a esta galáxia. [...] Se não há subjetividade consumada, aqui há, contudo, um movimento em processo de invenção de subjetividade, que reconhecemos como inerente e consubstancial à atividade de desconstrução, uma matriz genética de subjetividade. O fantasma da subjetividade é a trama poderosa e fundamental da desconstrução.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.4