Porque se o trabalho, se a ferramenta de trabalho está encarnada no cérebro, então a ferramenta de trabalho/cérebro se torna a maior potencialidade implantada hoje a fim de construir a riqueza. Mas, ao mesmo tempo, o homem é um todo, o cérebro faz parte do corpo, a ferramenta está encarnada não apenas no cérebro, mas também em tudo o que pertence o sentir. [...] O trabalho se constrói, portanto, a partir das ferramentas que foram encarnadas, mas essa encarnação compreende a própria vida. E pôr a vida em produção significa essencialmente pôr em produção os elementos de comunicação da vida. Uma vida individual se torna produtiva porque entra em comunicação com outros corpos, com outras ferramentas encarnadas. Mas se tudo isso é verdade, então a linguagem, ma qualidade de forma fundamental de cooperação e de produção, se torna central nesse processo. Ocorre que a linguagem, como o cérebro, está ligada a um corpo e o corpo não se exprime simplesmente por formas racionais ou pseudo-racionais, ou ainda por imagens: exprime-se também através de potências, das potências de viver, a que chamamos de afetos. A vida afetiva se torna, portanto, uma das expressões da ferramenta de trabalho encarnada dentro do corpo. Isso significa que o trabalho, da maneira pela qual se exprime hoje, não é apenas produtor de riquezas, mas também, e, sobretudo, de linguagens que produzem essas riquezas, as interpretam e delas desfrutam. Essas linguagens são tanto racionais quanto afetivas. E tudo isso tem importantes conseqüências na definição dos sujeitos. Porque, a partir do momento em que tiramos da classe operária o privilégio de ser o único representante do trabalho produtivo, e em que levamos esse trabalho produtivo a todos os sujeitos que encarnam a ferramenta de trabalho e a exprimiriam em formas lingüísticas, então devemos dizer que todos aqueles que produzem potências vitais encontram-se no interior desse processo, e que aí estão de maneira essencial. Pensemos, por exemplo, em todo circuito de reprodução da força de trabalho, da maternidade à educação, da gestão da comunicação à organização do chamado tempo livre, tudo isso hoje entra em produção.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27-8
Na relação entre nova experiência de exploração e nova experiência de potência constituinte, vivemos um desconforto absurdo. Absurdo porque a construtividade e a produtividade, a nova potência que sentimos no corpo, tudo isso nos impede de sofrer a nova exploração da mesma maneira que sofriam nossos pais: atordoados que eram pelo cansaço e pelo álcool, brutalizados em suas relações sociais, quando não feridos em seus corpos ou doentes no espírito. Até mesmo para sermos explorados devemos ser sãos: esse é o paradoxo da atual fase de desenvolvimento e é sobre esse paradoxo que poderemos pensar a atualidade como uma forma de sociedade diferente e superior.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.12
Não é mais um corpo que pode ser posto a trabalhar, não é mais uma alma que pode viver independente de valores e paixões. Dessa vez é a alma que é posta a trabalhar, e o corpo e a máquina são seu suporte. Para produzir precisa-se cada vez menos de razão e sempre mais de afeto: não apenas as teorias e as práticas tecnológicas nos confirmam isso positivamente: negativamente também nos dizem as doutrinas psicológicas e psiquiátricas. [...] é cansativo: nosso corpo em geral não está à altura da alma e vice-versa. Quando trabalhamos, verificamos nossa tensão construtiva, nossa alma se cansa como um corpo; é de fato miserável! [...] Não há liberdade suficiente para a alma, não há salário suficiente para o corpo, e por isso o trabalho (que é cada vez mais alma e cada vez mais sublima o corpo), nós o experimentamos como separação e exílio. É uma nova experiência de exploração a que vivemos. Mas é também uma nova experiência de constituição ontológica, ou melhor, de metamorfose.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.11
Não creio que os migrantes fujam somente da miséria; penso que eles busquem liberdade, saber e riqueza. O desejo é uma potência construtiva, e ela é tanto mais forte quanto mais está implantada na pobreza; a pobreza, de fato, não é simplesmente miséria, mas é a possibilidade de muitíssimas coisas, que o desejo indica e o trabalho produz.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.47