Novembro 15, 2006

A biopolítica é, portanto, essa perspectiva dentro da qual os aspectos político-administrativos se juntam às dimensões democráticas, para que o governo das cidades e das nações possa ser apreendido de maneira unitária, reunindo ao mesmo tempo os desenvolvimentos naturais da vida e de sua reprodução, e as estruturas administrativas que a disciplinam (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc). [...] uma vez admitida essa definição, é preciso, contudo, ir um pouco mais longe e perguntar-se o que significa biopolítica quando se entra no pós-moderno, ou seja, nessa fase do desenvolvimento capitalista em que triunfa a subordinação real da sociedade como um todo ao capital. [...] o biopolítico mudou de cara: torna-se biopolítico produtivo. Isso significa que a relação entre os conjuntos demográficos ativos (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc) e as estruturas administrativas que os percorrem é a expressão direta de uma potência produtiva. [...] o conjunto das forças produtivas, dos indivíduos e dos grupos se torna produtivo à medida que os sujeitos sociais se vão reapropriando do conjunto. Nesse âmbito, a produção social é completamente articulada através da produção de subjetividade.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.39

Novembro 15, 2006

Hoje, na transformação do moderno em pós-moderno, o problema volta a ser o da multidão. Na medida em que as classes sociais como tais se desagregam, o fenômeno da autoconcentração organizadora das classes sociais desaparece. [...] Trata-se de uma multidão que é o resultado de uma massificação intelectual; não pode mais ser chamada de plebe ou povo, porque é uma multidão rica. [...] E hoje multidão é isso  uma multidão que subtrai ao poder toda transcendência possível e que não pode ser dominada senão de forma parasitária, portanto, feroz.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.30-1

Novembro 15, 2006

Hoje, porém, esse vínculo entre produção de riqueza e trabalho assalariado foi rompido. O trabalhador, hoje, não precisa mais de ferramentas de trabalho (ou seja, de capital fixo) que sejam postas à sua disposição pelo capital. O mais importante capital fixo, aquele que determina os diferenciais de produtividade, doravante está no cérebro das pessoas que trabalha: é a máquina-ferramenta que cada um de nós traz em si.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.26

Novembro 15, 2006

A passagem da “inflação” (de desejos e de necessidades) dos anos subseqüentes a 68 para a desinflação dos custos representa a transição capitalista do moderno ao pós-moderno, do fordismo ao pós-fordismo. É uma transição política no meio da qual o trabalho assalariado foi exaltado como matriz fundamental da produção das riquezas. Mas o trabalho foi separado de sua potência política. Essa potência política provinha de trabalhadores reunidos no interior das fábricas, organizados em estruturas sindicais e políticas fortes. A destruição dessas estruturas deixos atrás de si uma massa informe de proletários agitando-se no terreno: um verdadeiro formigueiro, que produz riquezas através de uma colaboração e cooperação contínuas. [...] E esse é o incrível paradoxo frente ao qual nos encontramos. Isso porque o trabalho ainda é considerado emprego, trabalho “empregado” pelo capital, em estruturas que o submetem diretamente à organização capitalista de produção.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.25-6