Hoje, na transformação do moderno em pós-moderno, o problema volta a ser o da multidão. Na medida em que as classes sociais como tais se desagregam, o fenômeno da autoconcentração organizadora das classes sociais desaparece. [...] Trata-se de uma multidão que é o resultado de uma massificação intelectual; não pode mais ser chamada de plebe ou povo, porque é uma multidão rica. [...] E hoje multidão é isso uma multidão que subtrai ao poder toda transcendência possível e que não pode ser dominada senão de forma parasitária, portanto, feroz.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.30-1
É preciso dizer que a força de trabalho que conhecemos, ou seja, a classe operária, lutou para recusar a disciplina de fábrica. [...] vivemos, na segunda metade do século XX, uma transição no cerne da qual o trabalho se emancipou. Emancipou-se por sua capacidade de tornar-se intelectual, imaterial; emancipou-se da disciplina da fábrica. [...] O capitalista é doravante um parasita: não como capitalista financeiro, nos termos marxistas clássicos, mas sim porque não tem mais a capacidade de dominar unilateralmente a estrutura do processo de trabalho, através da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. As novas formas de subjetividade quebraram e tornaram essa separação reversível, produzindo novos meios de expressão de sua potência e um terreno de luta e de negociação.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27
A passagem da “inflação” (de desejos e de necessidades) dos anos subseqüentes a 68 para a desinflação dos custos representa a transição capitalista do moderno ao pós-moderno, do fordismo ao pós-fordismo. É uma transição política no meio da qual o trabalho assalariado foi exaltado como matriz fundamental da produção das riquezas. Mas o trabalho foi separado de sua potência política. Essa potência política provinha de trabalhadores reunidos no interior das fábricas, organizados em estruturas sindicais e políticas fortes. A destruição dessas estruturas deixos atrás de si uma massa informe de proletários agitando-se no terreno: um verdadeiro formigueiro, que produz riquezas através de uma colaboração e cooperação contínuas. [...] E esse é o incrível paradoxo frente ao qual nos encontramos. Isso porque o trabalho ainda é considerado emprego, trabalho “empregado” pelo capital, em estruturas que o submetem diretamente à organização capitalista de produção.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.25-6
Na relação entre nova experiência de exploração e nova experiência de potência constituinte, vivemos um desconforto absurdo. Absurdo porque a construtividade e a produtividade, a nova potência que sentimos no corpo, tudo isso nos impede de sofrer a nova exploração da mesma maneira que sofriam nossos pais: atordoados que eram pelo cansaço e pelo álcool, brutalizados em suas relações sociais, quando não feridos em seus corpos ou doentes no espírito. Até mesmo para sermos explorados devemos ser sãos: esse é o paradoxo da atual fase de desenvolvimento e é sobre esse paradoxo que poderemos pensar a atualidade como uma forma de sociedade diferente e superior.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.12
Em todo momento da produção capitalista, o capital propôs sempre a forma de cooperação. Esta tinha que ser funcional à forma de exploração, quando não inerente. Somente sobre esta base o trabalho se tornava produtivo. Também no período de acumulação primitiva, quando o capital voltou a assumir e obriga a valorização a formas laborais preexistentes, o capital é o que estabelece a forma de cooperação, que consiste no esvaziamento dos vínculos pré-constituídos nos sujeitos laborais tradicionais. Mas agora a situação mudou completamente. O capital se converteu em uma potência de captura, um fantasma, um ídolo: ao seu redor se desenvolveram processos de autovalorização, radicalmente autônomos, que tão somente o poder político, por boas ou más, consegue submeter para pô-la em forma capitalista. A passagem do econômico ao político, que aqui se produz, e em dimensões globais no que concerne à vida social produtiva, se realiza não porque o econômico se tornou um determinante menos essencial, mas sim unicamente porque o político pode arrancar ao econômico da tendência que o chega a confundir-se com o social e a realizar-se na autovalorização.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.8
A análise do trabalho se aprofunda e sua organização vai se descentralizando mais e mais no espaço, e se centrando na expropriação dos saberes sociais, na capitalização das redes laborais sociais, em suma, na exploração de uma figura operária social. A informatização do social, e em particular a utilização produtiva da comunicação, a passagem do programa do controle da sociedade de fora (a fábrica) para dentro (a comunicação) da própria sociedade. Um modo de produção social começa aqui a perfilar-se, e sua característica fundamental é a de integrar a sociedade na produção (isto é, marxianamente, reprodução e circulação).
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.7
Desde os anos 70 tivemos a infeliz sorte de viver o período mais cruel e estúpido da reestruturação e da repressão. Mas neste mesmo período capturamos a determinação de uma nova contradição estratégica que se abriu pela radical socialização produtiva na relação com o poder capitalista (seja burguês ou socialista). [Agora] [...] o comunismo se propõe segundo o modelo do poder constituinte. [...] O poder constituinte configura a produção social, engloba o social e o econômico no político, abarca a organização da produção e a organização política de maneira radicalmente construtiva.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.6-7
Na segunda fase da segunda revolução industrial, [...] a contradição estratégica se esboça entre processos produtivos e processos reprodutivos, ou de socialização avançada. [...] Aqui se torna explosiva a contradição entre massificação de um trabalho desqualificado e abstrato, que os operários recusam, e elevação geral do grau de cooperação, do nível de salário, da qualidade das necessidades. O operário massa constrói, em torno de sua recusa do trabalho e ao descobrimento da altíssima socialização do trabalho, seu próprio modelo de comunismo, em termos de modelo alternativo.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte , p.6
Na primeira fase da segunda revolução industrial, que vai de 1848 a I guerra mundial, as maiores contradições (sincrônicas, internas ao capital) se dão entre processos laborais diretos e processo capitalista de produção. O operário profissional, inserido no meio do processo laboral que controla plenamente, quer também o controle da produção. A reivindicação da autogestão do processo laboral e o controle do ciclo produtivo constituem, nesta fase, contradição estratégica. Está claro por que: porque uma subjetividade, um programa, nasce ali donde amadurecem as determinações sincrônicas e os ritmos diacrônicos que definem de maneira geral um período. Em torno do tema da autogestão e do controle, a multidão de operários profissionais constrói a matriz de um sujeito revolucionário e desenvolve o projeto comunista em um “modelo apropriativo”.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituyntep.06