O comunismo é a multidão que se torna comum. [...] é o comum que se põe ao um.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.32-3
Hoje, na transformação do moderno em pós-moderno, o problema volta a ser o da multidão. Na medida em que as classes sociais como tais se desagregam, o fenômeno da autoconcentração organizadora das classes sociais desaparece. [...] Trata-se de uma multidão que é o resultado de uma massificação intelectual; não pode mais ser chamada de plebe ou povo, porque é uma multidão rica. [...] E hoje multidão é isso uma multidão que subtrai ao poder toda transcendência possível e que não pode ser dominada senão de forma parasitária, portanto, feroz.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.30-1
Há trabalho demais, porque todos trabalham e porque todos contribuem para a construção da riqueza social. Essa riqueza nasce da comunicação, da circulação e da capacidade de coordenar os esforços de cada um. Como diz Christian Marazzi, a produção da riqueza é assegurada hoje por ter uma comunidade biopolítica (o trabalho daqueles que têm um emprego, mas também o trabalho dos estudantes, das mulheres, de todos os que contribuem para a produção de afetividade, da sensibilidade, dos modos de semiotização da subjetividade), produção de riqueza que os capitalistas comandam e organizam através da desinflação, ou seja, da compressão de todos os custos que a cooperação produtiva e as condições sociais de sua reprodução exigem.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.24
Cada um de nós é uma máquina do real, cada um de nós é uma máquina construtiva. Hoje não há mais profeta capaz de falar no deserto e de contar que sabe de um povo por vir, por construir. Só há militantes, ou seja, pessoas capazes de viver até o limite a miséria do mundo, de identificar as novas formas de exploração e de sofrimento, e de organizar, a partir dessas formas, processos de libertação, precisamente porque tem participação ativa em tudo isso.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.23
As análises dos modelos de produção, por exemplo, enquanto implicam constantemente a participação ativa das multidões nas atividades produtivas, descrevem as transformações das formas de domínio e sua eficácia.
Michael Hardt; Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.85
Justamente quando o Império se constitui como soberania imperial, ele entra em crise porque está sendo ameaçado não por um inimigo externo (não existe mais um fora do Império), mas por uma multidão de tensões internas difundidas em todas as direções.
Michael Hardt; Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.83
Não existem mais povos, mas somente multidões que seguem dinâmicas moleculares, reivindicam diferenças, experimentam cruzamentos e hibridações.
Michael Hardt; Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.83
A trama sobre a qual se define a subjetividade antagonista não é uma tendência projetada para um porvir mítico, para uma hipóstase futura, ao contrário, o processo de desconstrução é também processo de construção de uma subjetividade. Sabotagem e autovalorização são rostos de um mesmo sujeito, melhor ainda, a dupla figura da porta de jano que introduz a constituição do sujeito. [...] Se efetivamente a produção já é completamente comunicação, o sentido do antagonismo não terá um lugar ou um tempo de fundação distintos da própria comunicação. É na desconstrução da comunicação donde se constrói o sujeito, donde a multidão torna-se potência.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.04
O capital, por mais reformista que seja, jamais acede de bom grado a uma fase seguinte ou superior do modo de produção. De fato a inovação capitalista é sempre um produto, um compromisso ou uma resposta, em resumo, uma constrição derivada do antagonismo operário. Deste ponto de vista o capital sente frequentemente o progresso como um atraso. Ou melhor, uma desconstrução. Porque, quanto mais radical é a inovação, tanto mais profundas e fortes são as forças proletárias antagonistas que as determinaram, e extrema foram, portanto, a força utilizada pelo capital para dominá-las. Toda inovação é uma revolução fracassada, mas também empreendida. Toda a inovação é a secularização da revolução. [...] o aumento da complexidade é o aumento da precariedade da dominação. [...] Hoje o processo de inovação desestrutura, desconstrói o capital. [...] Mas quem desconstrói a quem? O objeto e conhecido: desconstrução é desestruturação da dominação, profunda, implacável, irreversível, se produz no momento em que a forma política e social da exploração se determina e suas inovações se manifestam. Mas quem atua no interior das dinâmicas deste antagonismo? O ator é em primeiro lugar a multidão, é a multiplicidade inumerável de poderes e saberes sociais, e a rede do cotidiano significante. Não falamos de sujeito, porque não posso atribuir-lhes características subjetividades a esta galáxia. [...] Se não há subjetividade consumada, aqui há, contudo, um movimento em processo de invenção de subjetividade, que reconhecemos como inerente e consubstancial à atividade de desconstrução, uma matriz genética de subjetividade. O fantasma da subjetividade é a trama poderosa e fundamental da desconstrução.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.4
Estou de acordo com o fato de que o termo “multidão” (e o que ele contém) representa uma posição de radical antiindividualismo político. [...] nosso problema, como para Espinosa, não é juntar os indivíduos isolados, mas construir de maneira cooperativa formas e instrumentos comunitários e conduzir ao reconhecimento (ontológico) do comum. do ar à água até a produção informatizada e as redes, qual é o terreno sobre o qual se estende a liberdade: como se organiza o comum?
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.45-6