O capital, por mais reformista que seja, jamais acede de bom grado a uma fase seguinte ou superior do modo de produção. De fato a inovação capitalista é sempre um produto, um compromisso ou uma resposta, em resumo, uma constrição derivada do antagonismo operário. Deste ponto de vista o capital sente frequentemente o progresso como um atraso. Ou melhor, uma desconstrução. Porque, quanto mais radical é a inovação, tanto mais profundas e fortes são as forças proletárias antagonistas que as determinaram, e extrema foram, portanto, a força utilizada pelo capital para dominá-las. Toda inovação é uma revolução fracassada, mas também empreendida. Toda a inovação é a secularização da revolução. [...] o aumento da complexidade é o aumento da precariedade da dominação. [...] Hoje o processo de inovação desestrutura, desconstrói o capital. [...] Mas quem desconstrói a quem? O objeto e conhecido: desconstrução é desestruturação da dominação, profunda, implacável, irreversível, se produz no momento em que a forma política e social da exploração se determina e suas inovações se manifestam. Mas quem atua no interior das dinâmicas deste antagonismo? O ator é em primeiro lugar a multidão, é a multiplicidade inumerável de poderes e saberes sociais, e a rede do cotidiano significante. Não falamos de sujeito, porque não posso atribuir-lhes características subjetividades a esta galáxia. [...] Se não há subjetividade consumada, aqui há, contudo, um movimento em processo de invenção de subjetividade, que reconhecemos como inerente e consubstancial à atividade de desconstrução, uma matriz genética de subjetividade. O fantasma da subjetividade é a trama poderosa e fundamental da desconstrução.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.4