Novembro 15, 2006

O problema é compreender como a ação, o discurso, a resistência de um proletariado que, a partir de agora, se tornou intelectualidade de massa. Paradoxalmente, são os próprios trabalhadores que produzem as imagens, as linguagens e as formas utilizadas para construir a falsificação do mundo, para transformar o sentido da realidade, para subtrair a essa realidade toda significação antagonista. O problema principal se torna, então, a identificação, a partir das forças que vivem nesse tipo de mundo e que entraram nesse novo tipo de realidade, de uma forma de expressão material. Não uma forma de expressão alternativa – a alternativa implica sempre uma certa alusão ou uma analogia com o “velho” -, mas, ao contrário, uma expressão que consiga achar, dentro dessa unificação forçada, mundializada e comunicativa, pontos de apoio, pontos de ruptura, pontos suscetíveis de constituir o novo.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.42

Novembro 15, 2006

Como definir o Império? É a forma política do mercado mundial, ou seja, o conjunto das armas e dos meios de coerção que o defendem, instrumentos de regulação monetária, financeira e comercial, e, enfim, no interior de uma sociedade mundial “biopolítica”, o conjunto dos instrumentos de circulação, de comunicação e de linguagens.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.41

Novembro 15, 2006

Porque se o trabalho, se a ferramenta de trabalho está encarnada no cérebro, então a ferramenta de trabalho/cérebro se torna a maior potencialidade implantada hoje a fim de construir a riqueza. Mas, ao mesmo tempo, o homem é um todo, o cérebro faz parte do corpo, a ferramenta está encarnada não apenas no cérebro, mas também em tudo o que pertence o sentir. [...] O trabalho se constrói, portanto, a partir das ferramentas que foram encarnadas, mas essa encarnação compreende a própria vida. E pôr a vida em produção significa essencialmente pôr em produção os elementos de comunicação da vida. Uma vida individual se torna produtiva porque entra em comunicação com outros corpos, com outras ferramentas encarnadas. Mas se tudo isso é verdade, então a linguagem, ma qualidade de forma fundamental de cooperação e de produção, se torna central nesse processo. Ocorre que a linguagem, como o cérebro, está ligada a um corpo e o corpo não se exprime simplesmente por formas racionais ou pseudo-racionais, ou ainda por imagens: exprime-se também através de potências, das potências de viver, a que chamamos de afetos. A vida afetiva se torna, portanto, uma das expressões da ferramenta de trabalho encarnada dentro do corpo. Isso significa que o trabalho, da maneira pela qual se exprime hoje, não é apenas produtor de riquezas, mas também, e, sobretudo, de linguagens que produzem essas riquezas, as interpretam e delas desfrutam. Essas linguagens são tanto racionais quanto afetivas. E tudo isso tem importantes conseqüências na definição dos sujeitos. Porque, a partir do momento em que tiramos da classe operária o privilégio de ser o único representante do trabalho produtivo, e em que levamos esse trabalho produtivo a todos os sujeitos que encarnam a ferramenta de trabalho e a exprimiriam em formas lingüísticas, então devemos dizer que todos aqueles que produzem potências vitais encontram-se no interior desse processo, e que aí estão de maneira essencial. Pensemos, por exemplo, em todo circuito de reprodução da força de trabalho, da maternidade à educação, da gestão da comunicação à organização do chamado tempo livre, tudo isso hoje entra em produção.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27-8

Novembro 15, 2006

Há trabalho demais, porque todos trabalham e porque todos contribuem para a construção da riqueza social. Essa riqueza nasce da comunicação, da circulação e da capacidade de coordenar os esforços de cada um. Como diz Christian Marazzi, a produção da riqueza é assegurada hoje por ter uma comunidade biopolítica (o trabalho daqueles que têm um emprego, mas também o trabalho dos estudantes, das mulheres, de todos os que contribuem para a produção de afetividade, da sensibilidade, dos modos de semiotização da subjetividade), produção de riqueza que os capitalistas comandam e organizam através da desinflação, ou seja, da compressão de todos os custos que a cooperação produtiva e as condições sociais de sua reprodução exigem.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.24

Novembro 15, 2006

Cada um de nós é uma máquina do real, cada um de nós é uma máquina construtiva. Hoje não há mais profeta capaz de falar no deserto e de contar que sabe de um povo por vir, por construir. Só há militantes, ou seja, pessoas capazes de viver até o limite a miséria do mundo, de identificar as novas formas de exploração e de sofrimento, e de organizar, a partir dessas formas, processos de libertação, precisamente porque tem participação ativa em tudo isso.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.23

Novembro 15, 2006

Um terceiro exemplo [...] concerne ao poder e à necessidade de controlar a linguagem. Hoje, na produção pós-fordista, a linguagem tornou-se, ela mesma, uma força produtiva. Todo o aparato de signos foi confiado à criatividade do trabalho vivo: isto é o que constitui a forma criadora dominante em nossa sociedade. Trabalha-se com linguagens e constrói-se com signos. Neste ponto, controle dos sentidos e significados dos signos, linguagens e sistemas produtivos são algo que excede qualquer nexo linear possível e, portanto, qualquer controle absoluto sobre as linguagens.

Michael Hardt; Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.81

Novembro 15, 2006

O fato da linguagem (a produção semiótica, como gosta de apontar Paolo Virno) ter passado a compor a mercadoria exigiu ao capital a necessidade de controlá-la, de modo, a garantir os extratos de valor à mercadoria, administrando assim o excedente de linguagem produzido socialmente. O principal limitador da autonomia do trabalho imaterial constitui hoje no jogo capitalístico de limitação da difusão social das linguagens. Contudo, esse controle absoluto é impossível, e por isso, se constitui um elemento-crise ao próprio capitalismo dependente das multiplicidades das linguagens
Michael Hardt; Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.80

Novembro 14, 2006

A cooperação produtiva do operário social é a consolidação da recusa ao trabalho. [...] na realidade, quanto mais abstrata se torna a instrumentalização da produção, supera a figura da mecanização e se torna imaterial, tanto mais implicada está na luta que atravessa o social. A automação participa, todavia, em parte, da velha economia política do controle mediante a maquinaria: mas a informática se encontra já mais além deste horizonte, e oferecer enormes potenciais de ruptura.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.8

Novembro 14, 2006

A análise do trabalho se aprofunda e sua organização vai se descentralizando mais e mais no espaço, e se centrando na expropriação dos saberes sociais, na capitalização das redes laborais sociais, em suma, na exploração de uma figura operária social. A informatização do social, e em particular a utilização produtiva da comunicação, a passagem do programa do controle da sociedade de fora (a fábrica) para dentro (a comunicação) da própria sociedade. Um modo de produção social começa aqui a perfilar-se, e sua característica fundamental é a de integrar a sociedade na produção (isto é, marxianamente, reprodução e circulação).

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.7

Novembro 14, 2006

A trama sobre a qual se define a subjetividade antagonista não é uma tendência projetada para um porvir mítico, para uma hipóstase futura, ao contrário, o processo de desconstrução é também processo de construção de uma subjetividade. Sabotagem e autovalorização são rostos de um mesmo sujeito, melhor ainda, a dupla figura da porta de jano que introduz a constituição do sujeito. [...] Se efetivamente a produção já é completamente comunicação, o sentido do antagonismo não terá um lugar ou um tempo de fundação distintos da própria comunicação. É na desconstrução da comunicação donde se constrói o sujeito, donde a multidão torna-se potência.
Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.04