Novembro 15, 2006

É preciso dizer que a força de trabalho que conhecemos, ou seja, a classe operária, lutou para recusar a disciplina de fábrica. [...] vivemos, na segunda metade do século XX, uma transição no cerne da qual o trabalho se emancipou. Emancipou-se por sua capacidade de tornar-se intelectual, imaterial; emancipou-se da disciplina da fábrica. [...] O capitalista é doravante um parasita: não como capitalista financeiro, nos termos marxistas clássicos, mas sim porque não tem mais a capacidade de dominar unilateralmente a estrutura do processo de trabalho, através da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. As novas formas de subjetividade quebraram e tornaram essa separação reversível, produzindo novos meios de expressão de sua potência e um terreno de luta e de negociação.

Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27

Novembro 14, 2006

Em todo momento da produção capitalista, o capital propôs sempre a forma de cooperação. Esta tinha que ser funcional à forma de exploração, quando não inerente. Somente sobre esta base o trabalho se tornava produtivo. Também no período de acumulação primitiva, quando o capital voltou a assumir e obriga a valorização a formas laborais preexistentes, o capital é o que estabelece a forma de cooperação, que consiste no esvaziamento dos vínculos pré-constituídos nos sujeitos laborais tradicionais. Mas agora a situação mudou completamente. O capital se converteu em uma potência de captura, um fantasma, um ídolo: ao seu redor se desenvolveram processos de autovalorização, radicalmente autônomos, que tão somente o poder político, por boas ou más, consegue submeter para pô-la em forma capitalista. A passagem do econômico ao político, que aqui se produz, e em dimensões globais no que concerne à vida social produtiva, se realiza não porque o econômico se tornou um determinante menos essencial, mas sim unicamente porque o político pode arrancar ao econômico da tendência que o chega a confundir-se com o social e a realizar-se na autovalorização.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.8

Novembro 14, 2006

Desde os anos 70 tivemos a infeliz sorte de viver o período mais cruel e estúpido da reestruturação e da repressão. Mas neste mesmo período capturamos a determinação de uma nova contradição estratégica que se abriu pela radical socialização produtiva na relação com o poder capitalista (seja burguês ou socialista). [Agora] [...] o comunismo se propõe segundo o modelo do poder constituinte. [...] O poder constituinte configura a produção social, engloba o social e o econômico no político, abarca a organização da produção e a organização política de maneira radicalmente construtiva.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, P.6-7

Novembro 14, 2006

Na segunda fase da segunda revolução industrial, [...] a contradição estratégica se esboça entre processos produtivos e processos reprodutivos, ou de socialização avançada. [...] Aqui se torna explosiva a contradição entre massificação de um trabalho desqualificado e abstrato, que os operários recusam, e elevação geral do grau de cooperação, do nível de salário, da qualidade das necessidades. O operário massa constrói, em torno de sua recusa do trabalho e ao descobrimento da altíssima socialização do trabalho, seu próprio modelo de comunismo, em termos de modelo alternativo.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte , p.6

Novembro 14, 2006

Na primeira fase da segunda revolução industrial, que vai de 1848  a I guerra mundial, as maiores contradições (sincrônicas, internas ao capital) se dão entre processos laborais diretos e processo capitalista de produção. O operário profissional, inserido no meio do processo laboral que controla plenamente, quer também o controle da produção. A reivindicação da autogestão do processo laboral e o controle do ciclo produtivo constituem, nesta fase, contradição estratégica. Está claro por que: porque uma subjetividade, um programa, nasce ali donde amadurecem as determinações sincrônicas e os ritmos diacrônicos que definem de maneira geral um período. Em torno do tema da autogestão e do controle, a multidão de operários profissionais constrói a matriz de um sujeito revolucionário e desenvolve o projeto comunista em um “modelo apropriativo”.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituyntep.06

Novembro 14, 2006

O capital, por mais reformista que seja, jamais acede de bom grado a uma fase seguinte ou superior do modo de produção. De fato a inovação capitalista é sempre um produto, um compromisso ou uma resposta, em resumo, uma constrição derivada do antagonismo operário. Deste ponto de vista o capital sente frequentemente o progresso como um atraso. Ou melhor, uma desconstrução. Porque, quanto mais radical é a inovação, tanto mais profundas e fortes são as forças proletárias antagonistas que as determinaram, e extrema foram, portanto, a força utilizada pelo capital para dominá-las. Toda inovação é uma revolução fracassada, mas também empreendida. Toda a inovação é a secularização da revolução. [...] o aumento da complexidade é o aumento da precariedade da dominação. [...] Hoje o processo de inovação desestrutura, desconstrói o capital. [...] Mas quem desconstrói a quem? O objeto e conhecido: desconstrução é desestruturação da dominação, profunda, implacável, irreversível, se produz no momento em que a forma política e social da exploração se determina e suas inovações se manifestam. Mas quem atua no interior das dinâmicas deste antagonismo? O ator é em primeiro lugar a multidão, é a multiplicidade inumerável de poderes e saberes sociais, e a rede do cotidiano significante. Não falamos de sujeito, porque não posso atribuir-lhes características subjetividades a esta galáxia. [...] Se não há subjetividade consumada, aqui há, contudo, um movimento em processo de invenção de subjetividade, que reconhecemos como inerente e consubstancial à atividade de desconstrução, uma matriz genética de subjetividade. O fantasma da subjetividade é a trama poderosa e fundamental da desconstrução.

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.4

Novembro 14, 2006

Os processos de modificação da forma do valor, os trânsitos de um ao outro período do desenvolvimento capitalista, seguem a dinâmica da relação social capitalista, e se determinam pela relação antagonista de exploração. Estes processos se desenvolvem sob a forma de uma dialética rudimentar e eficaz: explorando as forças laborais, o capital as encerra em estruturas que as englobam de maneira coercitiva, mas estas estruturas são, pela sua vez, ou melhor destruídas ou melhor remodeladas pelas forças sociais da produção. O processo real é resultante destas tensões particulares, o desenvolvimento não tem lógica, é simplesmente a consolidação do choque de vontades coletivas. [...] O materialismo histórico não tem nada a ver com o materialismo dialético

Antonio Negri, em Ocho tesis preliminares para uma teoria del poder constituynte, p.4

Novembro 12, 2006

Não estamos muito preocupados com a revolução informática. Evidentemente estamos atentos, porque permanecemos marxistas e acreditamos que, se a lei do valor não funciona mais como lei medida do desenvolvimento capitalista, o trabalho, todavia, continua sendo a dignidade do homem e a substância de sua história. A revolução tecnológica e informática dá a possibilidade de novos espaços de liberdade. No momento, determina também novas formas de escravidão. No entanto a reapropriação do instrumento por parte do trabalhador, o concentrar-se da valorização sobre a cooperação dos trabalhos cognitivos, o estender-se do saber e a importância da ciência nos processos produtivos, tudo isso determina novas condições materiais que devem ser consideradas positivamente na perspectiva da transformação.

Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.45

Novembro 12, 2006

Vejo a necessidade de resistir a um capitalismo sempre mais parasitário e predador, cuja legitimação (por si mesmo e pelos instrumentos estatais e imperiais com os quais eventualmente se identifica) torna-se completamente bélica. [...] Meu único problema diante de tudo isso é compreender qual é a resistência que se pode exercer à guerra, à miséria, à exploração. [...] O que me interessa é Davi diante de Golias, de qualquer Golias imperial: os militares diriam “a resistência do assimétrico”. E é por isso que o quadro global da resistência se torna poderoso: porque, apesar de incansável e contínua operação de gradeamento que as armadas imperiais produzem, na globalização sempre se dão espaços livres, buracos e pregas através dos quais um êxodo de resistência pode ocorrer.

Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.41