A multidão é uma multiplicidade de singularidades que não pode encontrar unidade representativa em nenhum sentido; povo, ao contrário, é uma unidade artificial que o Estado moderno exige como base de ficção de legitimação; por outro lado, massa é um conceito que a sociologia realista assume na base do mundo capitalista de produção, [...] em todo caso uma unidade indiferenciada. Para nós, ao contrário, os homens são singularidades, uma multidão de singularidades. Um segundo significado de multidão deriva do fato de que a contrapomos a “classe”. Do ponto de vista de uma sociologia do trabalho renovada, o trabalhador se apresenta, de fato, cada vez mais como portador de capacidades imateriais de produção. O trabalhador se reapropria do instrumento/utensílio do trabalho. No trabalho produtivo imaterial, o instrumento é o cérebro (e assim termina a dialética hegeliana do instrumento). Essa capacidade singular do trabalho constitui os trabalhadores em multidão em vez de classe. Disso deriva um campo de definição que é aquele mais especificamente político.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.44