Não creio que os migrantes fujam somente da miséria; penso que eles busquem liberdade, saber e riqueza. O desejo é uma potência construtiva, e ela é tanto mais forte quanto mais está implantada na pobreza; a pobreza, de fato, não é simplesmente miséria, mas é a possibilidade de muitíssimas coisas, que o desejo indica e o trabalho produz.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.47
Estou de acordo com o fato de que o termo “multidão” (e o que ele contém) representa uma posição de radical antiindividualismo político. [...] nosso problema, como para Espinosa, não é juntar os indivíduos isolados, mas construir de maneira cooperativa formas e instrumentos comunitários e conduzir ao reconhecimento (ontológico) do comum. do ar à água até a produção informatizada e as redes, qual é o terreno sobre o qual se estende a liberdade: como se organiza o comum?
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.45-6
Não estamos muito preocupados com a revolução informática. Evidentemente estamos atentos, porque permanecemos marxistas e acreditamos que, se a lei do valor não funciona mais como lei medida do desenvolvimento capitalista, o trabalho, todavia, continua sendo a dignidade do homem e a substância de sua história. A revolução tecnológica e informática dá a possibilidade de novos espaços de liberdade. No momento, determina também novas formas de escravidão. No entanto a reapropriação do instrumento por parte do trabalhador, o concentrar-se da valorização sobre a cooperação dos trabalhos cognitivos, o estender-se do saber e a importância da ciência nos processos produtivos, tudo isso determina novas condições materiais que devem ser consideradas positivamente na perspectiva da transformação.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.45
A multidão é uma multiplicidade de singularidades que não pode encontrar unidade representativa em nenhum sentido; povo, ao contrário, é uma unidade artificial que o Estado moderno exige como base de ficção de legitimação; por outro lado, massa é um conceito que a sociologia realista assume na base do mundo capitalista de produção, [...] em todo caso uma unidade indiferenciada. Para nós, ao contrário, os homens são singularidades, uma multidão de singularidades. Um segundo significado de multidão deriva do fato de que a contrapomos a “classe”. Do ponto de vista de uma sociologia do trabalho renovada, o trabalhador se apresenta, de fato, cada vez mais como portador de capacidades imateriais de produção. O trabalhador se reapropria do instrumento/utensílio do trabalho. No trabalho produtivo imaterial, o instrumento é o cérebro (e assim termina a dialética hegeliana do instrumento). Essa capacidade singular do trabalho constitui os trabalhadores em multidão em vez de classe. Disso deriva um campo de definição que é aquele mais especificamente político.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.44
Além de pensar a revolução em termos éticos e políticos, nós a pensamos também em termos de profunda modificação antropológica: de mestiçagem e hibridação contínua de populações, de metamorfose biopolítica. o primeiro campo de luta é, desse ponto de vista, o direito universal de movimentar-se, trabalhar, aprender em toda a superfície do globo. A revolução que nós vemos não está, portanto, somente dentro do Império, mas está também através do Império.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.42
Vejo a necessidade de resistir a um capitalismo sempre mais parasitário e predador, cuja legitimação (por si mesmo e pelos instrumentos estatais e imperiais com os quais eventualmente se identifica) torna-se completamente bélica. [...] Meu único problema diante de tudo isso é compreender qual é a resistência que se pode exercer à guerra, à miséria, à exploração. [...] O que me interessa é Davi diante de Golias, de qualquer Golias imperial: os militares diriam “a resistência do assimétrico”. E é por isso que o quadro global da resistência se torna poderoso: porque, apesar de incansável e contínua operação de gradeamento que as armadas imperiais produzem, na globalização sempre se dão espaços livres, buracos e pregas através dos quais um êxodo de resistência pode ocorrer.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.41
Estou de acordo com a idéia de Ulrick Beck segundo a qual eles estão se transformando em Estados transnacionais cuja sociedade civil é atravessada por uma quantidade de agências e instituições multinacionais como as grandes empresas econômicas, os mercados financeiros, as tecnologias da informação e da comunicação, a indústria cultural e assim por diante. É claro, na minha opinião, que os Estados estão redefinindo suas funções, concentrando-se sobretudo nas questões da segurança e da ordem pública interna, como sustentam Pierre Bourdieu e Löic Wacquant. P.38
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.
Nós não conhecemos nenhuma dialética, mas somente luta de classes. É a luta de classes que constitui a base de nosso método. [...] Nossa narrativa trata de um telos concreto, do risco e da luta dos homens contra a exploração, para tornar a vida alegre, para eliminar a dor.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p. 34
O antiamericanismo é um estado de espírito perigoso, uma ideologia que mistifica os dados de análise e cobre as responsabilidades do capital coletivo. Precisamos afastá-los de nós.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.31
Trata-se de avançar em alguns pontos essenciais da teoria marxista: construir, contra a dialética da história, uma teoria não-teleológica da luta de classe; além da teoria da mais-valia, as análises de valorização através do General Intellect, na época da subsunção real (completa) da sociedade no capital; e, pelo que diz respeito à teoria do Estado, trata-se de estabelecer, da soberania, o momento central do exercício de exploração.
Antonio Negri, em Cinco Lições sobre o Império, 2003, p.26