Falamos de trabalho intelectual como trabalho corporal, ou seja, trabalho que evidentemente compreende o intelecto, mas o encaramos em sua plasticidade, em sua maleabilidade, em sua capacidade de inserir-se em qualquer situação. O trabalho imaterial é, a meu ver, uma categoria que permite compreender a fundo essa plasticidade da nova força de trabalho
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O problema é compreender como a ação, o discurso, a resistência de um proletariado que, a partir de agora, se tornou intelectualidade de massa. Paradoxalmente, são os próprios trabalhadores que produzem as imagens, as linguagens e as formas utilizadas para construir a falsificação do mundo, para transformar o sentido da realidade, para subtrair a essa realidade toda significação antagonista. O problema principal se torna, então, a identificação, a partir das forças que vivem nesse tipo de mundo e que entraram nesse novo tipo de realidade, de uma forma de expressão material. Não uma forma de expressão alternativa – a alternativa implica sempre uma certa alusão ou uma analogia com o “velho” -, mas, ao contrário, uma expressão que consiga achar, dentro dessa unificação forçada, mundializada e comunicativa, pontos de apoio, pontos de ruptura, pontos suscetíveis de constituir o novo.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.42
A autonomia das políticas sociais e econômicas dos Estados-nações acabou: agora, tudo deve ser regulado em função das contabilidades e dos equilíbrios do sistema financeiro mundial.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.41
Como definir o Império? É a forma política do mercado mundial, ou seja, o conjunto das armas e dos meios de coerção que o defendem, instrumentos de regulação monetária, financeira e comercial, e, enfim, no interior de uma sociedade mundial “biopolítica”, o conjunto dos instrumentos de circulação, de comunicação e de linguagens.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.41
A biopolítica é, portanto, essa perspectiva dentro da qual os aspectos político-administrativos se juntam às dimensões democráticas, para que o governo das cidades e das nações possa ser apreendido de maneira unitária, reunindo ao mesmo tempo os desenvolvimentos naturais da vida e de sua reprodução, e as estruturas administrativas que a disciplinam (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc). [...] uma vez admitida essa definição, é preciso, contudo, ir um pouco mais longe e perguntar-se o que significa biopolítica quando se entra no pós-moderno, ou seja, nessa fase do desenvolvimento capitalista em que triunfa a subordinação real da sociedade como um todo ao capital. [...] o biopolítico mudou de cara: torna-se biopolítico produtivo. Isso significa que a relação entre os conjuntos demográficos ativos (a educação, a assistência, a saúde, os transportes etc) e as estruturas administrativas que os percorrem é a expressão direta de uma potência produtiva. [...] o conjunto das forças produtivas, dos indivíduos e dos grupos se torna produtivo à medida que os sujeitos sociais se vão reapropriando do conjunto. Nesse âmbito, a produção social é completamente articulada através da produção de subjetividade.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.39
O comunismo é a multidão que se torna comum. [...] é o comum que se põe ao um.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.32-3
Hoje, na transformação do moderno em pós-moderno, o problema volta a ser o da multidão. Na medida em que as classes sociais como tais se desagregam, o fenômeno da autoconcentração organizadora das classes sociais desaparece. [...] Trata-se de uma multidão que é o resultado de uma massificação intelectual; não pode mais ser chamada de plebe ou povo, porque é uma multidão rica. [...] E hoje multidão é isso uma multidão que subtrai ao poder toda transcendência possível e que não pode ser dominada senão de forma parasitária, portanto, feroz.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.30-1
Na realidade, não é mais possível imagina a produção das riquezas e dos saberes sem passar pela produção de subjetividade, e, portanto, da reprodução geral dos processos vitais.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.29
Porque se o trabalho, se a ferramenta de trabalho está encarnada no cérebro, então a ferramenta de trabalho/cérebro se torna a maior potencialidade implantada hoje a fim de construir a riqueza. Mas, ao mesmo tempo, o homem é um todo, o cérebro faz parte do corpo, a ferramenta está encarnada não apenas no cérebro, mas também em tudo o que pertence o sentir. [...] O trabalho se constrói, portanto, a partir das ferramentas que foram encarnadas, mas essa encarnação compreende a própria vida. E pôr a vida em produção significa essencialmente pôr em produção os elementos de comunicação da vida. Uma vida individual se torna produtiva porque entra em comunicação com outros corpos, com outras ferramentas encarnadas. Mas se tudo isso é verdade, então a linguagem, ma qualidade de forma fundamental de cooperação e de produção, se torna central nesse processo. Ocorre que a linguagem, como o cérebro, está ligada a um corpo e o corpo não se exprime simplesmente por formas racionais ou pseudo-racionais, ou ainda por imagens: exprime-se também através de potências, das potências de viver, a que chamamos de afetos. A vida afetiva se torna, portanto, uma das expressões da ferramenta de trabalho encarnada dentro do corpo. Isso significa que o trabalho, da maneira pela qual se exprime hoje, não é apenas produtor de riquezas, mas também, e, sobretudo, de linguagens que produzem essas riquezas, as interpretam e delas desfrutam. Essas linguagens são tanto racionais quanto afetivas. E tudo isso tem importantes conseqüências na definição dos sujeitos. Porque, a partir do momento em que tiramos da classe operária o privilégio de ser o único representante do trabalho produtivo, e em que levamos esse trabalho produtivo a todos os sujeitos que encarnam a ferramenta de trabalho e a exprimiriam em formas lingüísticas, então devemos dizer que todos aqueles que produzem potências vitais encontram-se no interior desse processo, e que aí estão de maneira essencial. Pensemos, por exemplo, em todo circuito de reprodução da força de trabalho, da maternidade à educação, da gestão da comunicação à organização do chamado tempo livre, tudo isso hoje entra em produção.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27-8
É preciso dizer que a força de trabalho que conhecemos, ou seja, a classe operária, lutou para recusar a disciplina de fábrica. [...] vivemos, na segunda metade do século XX, uma transição no cerne da qual o trabalho se emancipou. Emancipou-se por sua capacidade de tornar-se intelectual, imaterial; emancipou-se da disciplina da fábrica. [...] O capitalista é doravante um parasita: não como capitalista financeiro, nos termos marxistas clássicos, mas sim porque não tem mais a capacidade de dominar unilateralmente a estrutura do processo de trabalho, através da divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual. As novas formas de subjetividade quebraram e tornaram essa separação reversível, produzindo novos meios de expressão de sua potência e um terreno de luta e de negociação.
Antonio Negri, em Exílio Iluminuras, 2001, p.27